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ART DÉCO PIRATININGA

coluna | por Roberto Spina | @roberto.spina

 

Quem já teve a oportunidade de passear pela South Beach de Miami ou conheceu alguns arranha-céus de Nova York, como os edifícios Chrysler e Rockfeller Center, já testemunhou famosos exemplares do estilo Art Déco na arquitetura.

Apesar de ser reconhecido muito antes nas artes aplicadas, o estilo Art Déco (abreviação de arts décoratifs) teve seu batismo na Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas, realizada em Paris, no ano de 1925. Eram os “felizes (ou loucos) anos vinte” na Europa, época de efervescência social, artística e cultural. Não pode ser chamado de movimento, pois não teve sua origem ligada à política, às transformações sociais ou à filosofia, se tornando, portanto, uma expressão de caráter decorativo.

É apresentado inicialmente como um estilo moderno e luxuoso, destinado à burguesia enriquecida do pós-guerra, que empregava materiais caros como jade, laca e marfim. Apesar do requinte, caracterizava-se pelo uso de formas simples e geométricas, em oposição às formas orgânicas encontradas na estética Art Nouveau. Figuras femininas e de animais eram frequentemente utilizadas assim como as abstrações.

Nos Estados Unidos, o estilo se popularizou. A partir da exposição no Metropolitan Museum de Nova York, em 1934, passou a valorizar a produção industrial, com o uso de materiais e formas aptas para serem produzidas em massa. Na arquitetura assumiu caráter de limpeza e funcionalidade. O concreto armado foi largamente utilizado, possibilitando a criação de novas formas e espaços. 

Chegou ao Brasil no final da década de 1920 e encontrou a cidade de São Paulo em pleno crescimento e verticalização. Os arranha-céus do centro, geralmente sedes de grandes empresas ou instituições, retratavam a economia vigorosa da capital. O maior exemplo é o Edifício Altino Arantes, também conhecido como Banespa e, hoje, Farol Santander. A volumetria inicial do projeto de Plínio Botelho do Amaral foi alterada algumas vezes pela Construtora Camargo&Mesquita para que ficasse parecido ao Empire State, ícone capitalista da cidade de Nova York. Nele é facilmente reconhecida a composição típica de base, corpo escalonado e coroamento bem definidos. Ao lado, temos outro belíssimo exemplar, o edifício Banco de São Paulo. Projetado pelo arquiteto Álvaro de Arruda Botelho, é um modelo de decorativismo rigoroso com fachadas ricamente detalhadas e trabalhadas.

Antes destes, o arquiteto Elisiário Bahiana, autor de outros projetos na cidade, como o Viaduto do Chá, o edifício João Brícola (Mappin) e o Hipódromo do Jockey Clube, empregou em 1929 o estilo no Edifício Saldanha Marinho, à Rua Líbero Badaró, onde percebemos as influências do futurismo e do construtivismo. No seu interior, grandes pés direito, amplas esquadrias de ferro e hall suntuoso (outra característica dos prédios Art Déco).  Concluído em 1933 e tombado em 1986 pelo Condephaat, este edifício encontra-se hoje pouco, ou quase nada descaracterizado.

Mas apesar de exemplos vistosos, como os já citados, as ruas da região central, desde a Praça da Sé até Santa Cecília, oferecem uma grande quantidade de prédios menos conhecidos, construções de dois até dez andares (ou pouco mais). Neles percebemos os elementos geométricos bem definidos, marquises e terraços em balaço, aberturas circulares, vestíbulos ornamentados com mármores, metais nobres, sancas, luminárias de desenho diferenciado, caixilhos e portões metálicos trabalhados e até fontes (de escrita) de clara inspiração Art Déco.

Estes exemplos talvez não sejam reconhecidos à primeira vista devido ao grande número de reformas a que foram submetidos, na maioria das vezes com a descaracterização da loja e sobreloja e do uso indiscriminado de estruturas de propaganda e comunicação visual.

O conjunto Art Déco paulistano, que reúne também a Biblioteca Mario de Andrade e o Estádio do Pacaembu, é mais um ótimo exemplo da pluralidade arquitetônica da cidade, ainda desconhecida não só pelos habitantes, mas também por profissionais da área.

 

Foto: CriativoPippa por PixaBay

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