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APAIXONADO PELO BRASIL

olhar do arquiteto | por Daniele Lauria | @studio.lauria

 

Me apaixonei pelo Brasil há mais de dez anos e a cada dois ou três meses atravesso o oceano para abraçar os amigos e desenvolver os projetos de arquitetura com meus parceiros brasileiros. Assim é um grande prazer responder ao convite da revista Decorar e propor uma breve narrativa sobre as relações entre arquitetos brasileiros e estrangeiros e uma reflexão pessoal sobre a arquitetura brasileira vista de fora.

Minha história remonta ao setembro de 1947, quando a revista francesa “L’Architecture d’Aujourd’hui” publica uma reportagem que celebra uma jovem geração de arquitetos, liderados por Lucio Costa e Oscar Niemeyer, que tenta dar uma cara internacional ao boom econômico e ao desenvolvimento urbano do País. Assim começa uma fase de grande abertura da arquitetura brasileira e a obra do João Batista Vilanova Artigas, a quem devemos o nascimento da “escola paulista” ou “brutalista”, atrai muitos jovens talentos europeus, entre os quais se destacam o alemão Franz Heep, um dos maiores intérpretes do fenômeno da verticalização de São Paulo e, sobretudo, a Lina Bo Bardi que perturbou o cenário urbano paulistano com o MASP. Depois, nas décadas da ditadura militar, a arquitetura brasileira se fechou gradualmente para o resto do mundo e tivemos que esperar o novo milênio para os estrangeiros voltarem a trabalhar aqui.

Lembro bem, ainda em 2008, das controvérsias causadas pelo convite do Governador do Estado de São Paulo para Herzog & de Meuron projetar um centro cultural na área da Luz, um dos epicentros da Cracolândia. A chegada da dupla suíça foi ferozmente oposta, não apenas pelos custos da operação e pela abordagem de projeto, não muito inclusivo do contexto, mas porque foi interpretada como o início de uma possível invasão que, na realidade, nunca foi. Assim, os arquitetos tiveram que esperar até 2014 para inaugurar sua primeira obra em solo brasileiro, a Arena do “morro” Mãe Luiza em Natal. De fato, exceto a intervenção de Diller Scofidio + Renfro para o Museu da Imagem e do Som no Rio (iniciado em 2009 mas ainda não concluído) e o esquelético Museu do Amanhã de Calatrava, as intervenções estrangeiras permanecem poucas e muitas vezes limitadas ao setor corporativo. Feliz exceção, a “Japan House” de Kengo Kuma, que, juntamente com a “máquina urbana” projetada pela dupla Andrade e Morettin para o Instituto Moreira Salles, trouxe a Avenida Paulista de volta ao cenário internacional da arquitetura contemporânea.

 

Entrada do Museu de Arte de São Paulo, projetado por Lina Bo Bardi.

 

Na realidade, não é fácil para arquitetos estrangeiros se sintonizar com a especificidade brasileira. Como me explicou o Milton Braga, um dos parceiros do MMBB Arquitetura, o Brasil ainda está fortemente ligado à lição do modernismo, e o “brutalismo” ainda é sua alma mais autêntica, porque deixar a estrutura exposta e despir a arquitetura de qualquer formalismo representa um “imprinting” muito forte, com profundas motivações culturais e rigorosas razões econômicas, especialmente para obras públicas. Por outro lado, a arte da decoração que caracteriza o interior das casas brasileiras nunca deixa de me surpreender e tem uma riqueza e complexidade incomparáveis no mundo. Essas duas condições degeneram e se combinam artificialmente na maioria dos edifícios urbanos, onde a arquitetura do edifício é anônima e sem qualidade, enquanto o interior é uma explosão de materiais, luzes e cores.

No entanto, entre o rigor modernista e o luxo decorativo, existe o espaço para fazer boa arquitetura, tanto pela “new wave” brasileira, e nesse sentido me parece muito interessante o trabalho do estúdio SuperLimão, quanto pelos arquitetos estrangeiros que conseguem “mergulhar” na cultura local, como fez perfeitamente Lina, ou encontrar convergências e assonâncias, como demonstrado por Kengo Kuma, que na “Japan House” surfou habilmente entre a cultura japonesa e a brasileira.

O que certamente falta, ainda hoje e mais aos clientes do que aos arquitetos brasileiros, é uma sensibilidade concreta às questões ambientais (a sustentabilidade é um dever cívico) e a coragem de se abrir ao mundo e às novas tendências. Como se costuma dizer, mas pouco se pratica: sair da zona de conforto. E, também, abandonar a cultura do “padrão” que pouco tem a ver com a criatividade brasileira, com as linhas curvas do Niemeyer, com a redondeza da bossa nova e com as cores da natureza deste grande País.

 

FAU-USP, edifício Vilanova Artigas.

Fotos: Daniele Lauria

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